Blog

4º dia pós-Trump: a crónica de André Barata que acertou erradamente

Ao quarto dia da Era Trump ( uma metáfora, não acredito na era Trump) , comprei o Expresso (peço desculpa, compreendo a vossa reprovação  mas, de vez em quando, ainda acontece).  Só então li a Crónica do meu colega André Barata inserida no Interior e distribuída pelo Expresso mas  escrita na terça de noite a quando havia uma esperança de sensatez na Pensilvânia. Era só uma centelha. Pois, o cronista exprimia o seu desejo “Não espero que Trump ganhe. E ainda bem”.

Lendo o texto do André Barata quase  todos percebemos que teríamos feito o mesmo na  terça feira ao fim do dia.  Qiuando lemos pela primeira vez a Crónica no Sábado, a sensação de perplexidade é, por isso, mais estranha. De onde vem essa estranheza? Reconhecimento de que a esquerda está distraída, focada no wishful thinking, alheia ao mundo?  Ou que o o mundo está pior do que pensavamos?  A verdade é que todas as razões para escrever o que então se disse eram válidas, mas não passaram a prova de fogo. Porém, o o facto de elas serem expressas como um desejo, e a ambígua sensação de incerteza que percorre o texto parece promenitória: quase que adivinhava, não é?

 

Advertisements

4º dia da Era Trump – 1 dia depois do anunciado passamento do poeta.

Eu ontem ouvi Leonard Cohen porque é raro o dia em que não ouço música e para mim ouvir musica implica sempre um zapping na playlist favoritos. Ele está lá com o Glenn Gould a tocar as variações Goldberg, com Just Like a Woman do Dylan, e o Kind of Blue do Miles, e The Piano has Been Drinking do T. Waits, e o Birdland dos Weather Report. Isto na linha da frente: depois a Truta do Schubert nada no segundo quartil com a Lacrimosa do Mozart e o Bob Marley. É só musica para cotas mas com uma elevada quota de qualidade. Fui criado com o Suzanne em musica de fundo porque a minha irmã tinha comprado o album. Dez anos fazem a diiferença. Sou um dos últimos mohicanos dos sixties. Too young to die, just in time for rock and roll ( pelo menos mentalmente falando; bem a segunda parte, a do rock and roll, com algumas dificuldades por causa de algum imperceptivel excessozinho de peso). Mas cá continuo, com o espirito levezinho e a pensar: muitas coisas de cada vez. PS : dizem que o Leonard Cohen morreu. Palpita-me que está toda a gente enganada.

Como Raio é que isto aconteceu? O mundo pós 10 de Novembro: 1º dia da era Trump (2º Assalto)

Como é que isto aconteceu? Estatísticamente, era difícil mas não era improvável . O que move as pessoas para votos extremos? Bom: pensei a partir da minha experiência. Vejamos: defendi a permanência da Ingaterra contra o Brexit. Em nome de uma Europa mais inclusiva e solidária. Tive que fazer um esforço de racionalização:  esquecer que essa Europa dita solidária e inclusiva  discrimina paises mais fortes e países mais fracos e só obriga os segundos a  cumprirem as regras.

Torci pela Secretária Hilary Clinton contra  Donald Trump. Mais uma vez tive que racionalizar: fazer de conta que a Secretária Clinton não é próxima  de círculos financeiros que suportam o aumento da desigualdade e da exclusão. Mais uma vez., em nome de uma ordem mundial que dificilmente Hilary Clinton podia regular, que não é uma ordem sedutora para uma parte considerável do cidadão comum.

Agora, depois do nosso esforço, imaginemos a mente de muitas pessoas que nem são parte do eleitorado tradicional dos Republicanos.  Com um capital social e cultural eventualmente  mais fágil  (ou não) , numa sociedade competitiva que os desprotege e  a quem se pede para votarem numa candidata que lhes parece ser a incarnação dos motivos  das suas dificuldades diárias.  Trump não pode ter ganho apenas baseado numa coligação de republicanos tradicionais, red neks zangados,  misógenos desqualificados,  survivalistas furiosos e saudosistas do Klux-Klux-Klan. Esses estavam todos  com Trump mas estavam longe de serem únicos.

O discurso de esquerda, centro-esquerda  e até da direita democrática não pode ser impedido pela raiva mas não pode esquecer os motivos da indignação.  Tem que oferecer mais do que gráficos do Orçamento.

Finalmente, Portugal   não tem  práticas de extremismo populista organizada  graças às características do Pais mas também graças aos riscos assumidos  pela maioria politica atual , que viabilizou soluções  de centro que eram há uma década consensuais.  Talvez Portugal seja uma experiência mais consquente do que os laboratórios de indignação inconsequente que campeiam  ( àesquerda e a direita) na Europa.

o mundo pós 10 de Novembro: 1º dia da era Trump (1º Assalto)

Um livro que me recordo a propósito de Trump  é a obra de Phillip Roth chamada “Conspiração contra a América”.  Charles Lindheberg, herói da aviação, simpatizante do fascismo partidário da paz com a Alemanha e o Japão, ganha as eleições contra um democrata chamado Franklin Delano Roosevelt.  Estão lá todos. Os suspeitos do costume:  judeus e lideres semitas que apoiam o candidato pró germânico,  adeptos nacionalistas que parecem grunhos saídos de um acampamento survalista e até intelectuais que acham que a vitória do  Roosevelt contra Lindebergh era insignificante:  este parecem uma previsão do vídeosdo Zizek.  E, claro, a velha classe  média algo aflita a lutar pela sobrevivência.

Zizek Versus Trump

Na minha biblioteca também há jornais.  Zizek decidiu declarar  que votaria em Trump como forma de desestabilizar o sistema personificado em Clinton.

Há um ponto que me parece interessante. Saber até que ponto Trump é o sistema. Creio que é uma das suas execrescências possíveis, como o foram outros noutras décadas. Há um pensamento politicamente correcto que procura adoçar as arestas do sistema e contra o qual se afirmou um pensamento politicamente incorrecto que apenas pretende levar o  mesmo sistema às suas suas últimas consequências, desembaraçando-se de empecilhos democráticos, argumentativos e racionais e travestindo-se de alternativa antisistema. Assim, o pensamento politicamente incorrecto flirta com o pensamento pós-democrático.

Em Weimar, o cinismo antipoliticamente correcto também campeava como uma manfestação intelectual de desespero de camadas intermédias. Tal como hoje, era um aliado do aintintelectualismo que provinha de descamisados. Claro que Clinton nunca pode ser a negação do sistema, da plutocracia de Wall Street. Porém, ver em Trump esse alternativa é apenas uma cínica racionalização do impasse , racionalização essa que que, sem ser fascista, pode ser, todavia, seu muito útil aliado.

De qualquer forma, um encontro entre o Zízek e o Trump para discutir o futuro da Europa de Leste seria uma excelente forma de animação cultural para as tardes  do Domingo.  A intelectualização dos realitys-hows ou a realityshowzização dos debates intectuais é uma proposta com virtualidades visíveis.

Cultura para desopilar?

Uma vez li um livro chamado ” In Praise of Comercial culture”.
Veio-me imediatamente à memória  Ken Follett, um escritor comercial, erudito e imaginativo do qual já li muitas coisas em momentos em precisava de me entreter de uma forma inteligente. Se alguém diz Ken Follett, dirá Stieg Larson que captou espírito do tempo e se lembrou das lições de Sherlock Holmes (Millenium); Johnatam Littré que estudou literatura e escrita  criativa e por isso conhece todos os truques do ofício. E podíamos acrescentar  Alexandre Dumas (pai e Filho), Conan Doyle, Stephen King, Clancy e toda a vasta gama de escritores despretensiosos e cheios de talento,   do universo da espionagem e do policial, mesmo muitos e bons.  Acho que com Dashiel Hammet e John LeCarré o ponto fica demonstrado, até porque eles estão  no limar de outra coisa.

Agora, se eu olhar  aquelas sombras que estão dentro de nós mais à lupa leio Dostoievski e Fawlkner, se eu quiser refletir sobre a cultura europeia e a decadência do humanismo leio Mann e, se quiser, o Bellow, ,se eu quiser pensar o tempo e o fluxo da memória leio Proust, se eu quiser ter uma noção da aventura humana faço os possíveis por arranjar uma boa edição da Odisseia, se achar que a aventura humana precisa de uma versão diferente, leio o Joyce  e se estender a estética literária a domínios da não ficção terei de incluir Canetti, Nietzsche  ou a narrativas teológicas que são também grandes obras  da literatura. Se quiser uma epopeia de esquerda, prefiro a Condição Humana do Marlaux.  Ou então, se quiser perceber a decadência de classe e o espirito rural e misógeno onde nasceu um país de opereta imperial, leio o Cardoso Pires.   Mas continuo a ler o Hammeth , o Ken Follet e a supirar por precisar de mais tempo para voltar a ganhar o prazer pela banda desenhada, sendo que também aí “aprendo” sobre a literatura humana.   E o David Lodge, fica algures no middlebrow, como Dwight McDonald se referia à cultura média nos tempos em que essas categorias faziam sentido.  Antigamente, liam-se livros de “capa e espada”. Agora são livros de porrada, carago! Ou então, mangas bué de curtidas num site da Net.
Tudo isto para dizer que a vida e os seus retratos são multifacetados, não há narrativas únicas e todas são um diálogo com a Humanidade, uma interrogação sobre o destino destes pobres diabos que todos somos.  Por isso, se fala de letras e humanidades. Claro que se admitem perguntas incómodas, como sejam: então, já não há canône ?Independentemente disso, esta história do entretenimento e da seriedade está toda a precisar de ser esclarecida : entretenho-me muito seriamente  com a colecção Vampiro  e   medito sobre a natureza humana enquanto rio a bom rir com  bastantes passagens de Dickens ou de Eça de Queiroz.

À procura de Elena

 Depois de chegar ao fim do quarto volume da Amiga Genial, cerca de 1300 páginas depois de chegar a um bairro em Nápoles, ainda não é certo que se tenha algo para dizer que seja  definitivo. A história da Itália podia ser contada de muitas maneiras. A estratégia  da escritora  é francamente cruel e compreende-se que precisasse de algum sossego na sua identidade. A história é sobre Itália mas toca a todos os que abriram os olhos pelos meados de 60 e, por isso, reconhecem personagens, lutas e histórias. Mas é preciso muito fôlego para nos dar a imagem de 50 anos, em grande plano,  de uma imensidão de personagens.  Muitos dos personagens que habitam neste livro  excessivo  estão em plano aproximado.  Conversam sobre sexo, comida e sobrevivência com alguma, às vezes muita, crueza. Em pano de fundo está o pós-guerra: em sucessão interminável, desfilam  os fascistas, os camorristas, a radicalição da esquerda, as Brigadas Vermelhas, os anos de chumbo,  a colisão entre os radicalismos operários e estudantis e os esquadrões de morte, Aldo Moro, o aburguesamento dos comunistas e, em especial do PSI, a perda de inocência,  a chegada ao poder,  a realpolitik de braços dados com a corrupção, a chegada dos juizes, o desfazer dos sonhos, o envelhecimento dos corpos, a vida que se desfaz, uma sensação de vitória sempre adiada, de uma derrota sempre inevitável. Toda esta mole imensa de coisas e de acontecimentos é relatada durante a ascensão social do pós-guerra introduzida pela educação universitária e protagonizada por duas amigas (Lena Greco e Lina/Lila)  que parecem não ser mais do que dois lados possíveis da maneira de a vida ser encarada desde a adolescência até à velhice. Há momentos em que a trilogia parece desfazer-se. Outros em que temos a sensação que tudo aquilo parece um pouco artificial na maneira como os pensamentos e os personagens se cozinham naqueles cinquenta longos anos.  Pode mesmo parecer que, aqui e ali, a autora estava perdida. Mas, no final, parece que tudo faz sentido. Algumas pessoas falam de neo-realismo a propósito deste objecto literário. Mesmo formalmente, é discutível.  Porém, ao invés de realismo mágico temos uma espécie de  realismo cínico.  Enfim, a palavra “cínico”, não está bem escolhida. Voltar-se-á a falar disso.