À procura de Elena

 Depois de chegar ao fim do quarto volume da Amiga Genial, cerca de 1300 páginas depois de chegar a um bairro em Nápoles, ainda não é certo que se tenha algo para dizer que seja  definitivo. A história da Itália podia ser contada de muitas maneiras. A estratégia  da escritora  é francamente cruel e compreende-se que precisasse de algum sossego na sua identidade. A história é sobre Itália mas toca a todos os que abriram os olhos pelos meados de 60 e, por isso, reconhecem personagens, lutas e histórias. Mas é preciso muito fôlego para nos dar a imagem de 50 anos, em grande plano,  de uma imensidão de personagens.  Muitos dos personagens que habitam neste livro  excessivo  estão em plano aproximado.  Conversam sobre sexo, comida e sobrevivência com alguma, às vezes muita, crueza. Em pano de fundo está o pós-guerra: em sucessão interminável, desfilam  os fascistas, os camorristas, a radicalição da esquerda, as Brigadas Vermelhas, os anos de chumbo,  a colisão entre os radicalismos operários e estudantis e os esquadrões de morte, Aldo Moro, o aburguesamento dos comunistas e, em especial do PSI, a perda de inocência,  a chegada ao poder,  a realpolitik de braços dados com a corrupção, a chegada dos juizes, o desfazer dos sonhos, o envelhecimento dos corpos, a vida que se desfaz, uma sensação de vitória sempre adiada, de uma derrota sempre inevitável. Toda esta mole imensa de coisas e de acontecimentos é relatada durante a ascensão social do pós-guerra introduzida pela educação universitária e protagonizada por duas amigas (Lena Greco e Lina/Lila)  que parecem não ser mais do que dois lados possíveis da maneira de a vida ser encarada desde a adolescência até à velhice. Há momentos em que a trilogia parece desfazer-se. Outros em que temos a sensação que tudo aquilo parece um pouco artificial na maneira como os pensamentos e os personagens se cozinham naqueles cinquenta longos anos.  Pode mesmo parecer que, aqui e ali, a autora estava perdida. Mas, no final, parece que tudo faz sentido. Algumas pessoas falam de neo-realismo a propósito deste objecto literário. Mesmo formalmente, é discutível.  Porém, ao invés de realismo mágico temos uma espécie de  realismo cínico.  Enfim, a palavra “cínico”, não está bem escolhida. Voltar-se-á a falar disso.

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